Turquia acelera negociações com Ucrânia e Rússia sobre novo corredor de grãos
A Turquia negocia com a Ucrânia e a Rússia um novo mecanismo de segurança marítima para retomar os embarques de alimentos pelo mar Negro. Quase 100 milhões de toneladas de alimentos não conseguem chegar ao mercado, enquanto a interrupção ameaça o negócio turco de exportação de processados, avaliado em US$ 13 bilhões.
Ancara busca um mecanismo de segurança marítima
A Turquia intensificou as negociações com a Ucrânia e a Rússia sobre um novo mecanismo de segurança para a navegação comercial no mar Negro, segundo o Ekonomim. Ancara pretende restabelecer exportações confiáveis de alimentos e evitar novas altas dos preços mundiais, mas ainda não há um prazo para um possível acordo.
Os ataques a navios mercantes praticamente paralisaram a navegação civil no mar Negro, informou a publicação. O Ministério dos Transportes e Infraestrutura e o Ministério das Relações Exteriores da Turquia mantêm contato permanente com Kiev e Moscou. O vice-ministro dos Transportes, Durmuş Ünüvar, disse em reunião com a Câmara de Navegação que os canais diplomáticos trabalham 24 horas por dia, embora não exista um prazo definido.
O mecanismo negociado serviria para proteger embarcações comerciais e reduzir a pressão sobre os mercados de alimentos. Seu efeito dependerá de armadores, tripulações e seguradoras considerarem as medidas de segurança confiáveis o bastante para retomar as viagens. Até lá, a incerteza sobre a proteção dos navios continuará restringindo a saída de cargas agrícolas da região.
Estoques aumentam junto com os preços
Quase 100 milhões de toneladas de alimentos não conseguem chegar ao mercado, criando um grande problema de armazenamento na Ucrânia e na Rússia e elevando o risco de deterioração de parte da produção, segundo a reportagem. Os preços dos grãos já avançaram 4-4,5%.
Kazım Taycı, presidente da Associação de Exportadores de Cereais, Leguminosas, Oleaginosas e Produtos de Istambul, afirmou que o processo do corredor de grãos do mar Negro foi totalmente interrompido e que a Turquia não recebe nenhum produto da Ucrânia ou da Rússia. Ele alertou que a alta dos preços pode superar 10% se o problema não for resolvido em dois meses.
A publicação também informou que o preço mundial do trigo atingiu o maior nível em três anos após saltar 18%, diante do bloqueio dos portos e da renovação dos riscos à navegação. Os números medem pressões diferentes: a alta de 4-4,5% se refere aos grãos de forma ampla, enquanto os 18% dizem respeito especificamente ao preço mundial do trigo.
A Ucrânia também enfrenta falta de capacidade nos silos e escassez de capital de giro entre os agricultores. Se essas restrições persistirem, o país poderá reduzir em 5-7 milhões de hectares a área plantada para a próxima safra, quase um terço de toda a área semeada. O impacto da interrupção logística avançaria, assim, dos estoques atuais para a produção futura.
Exportações turcas de processados ficam expostas
O mercado interno da Turquia está plenamente abastecido de alimentos, mas o setor de processamento voltado à exportação corre riscos. As empresas turcas compram matérias-primas da Ucrânia e da Rússia, processam os insumos no país e exportam os produtos acabados. Esse negócio gerou US$ 13 bilhões para a Turquia no ano passado, segundo a reportagem.
Uma interrupção prolongada afetaria, portanto, mais do que os vendedores de grãos do mar Negro. Ela limitaria a matéria-prima dos processadores turcos, reduziria a movimentação de portos e operadores logísticos e elevaria a incerteza para compradores de alimentos industrializados. Para produtores ucranianos e russos, a demora acrescentaria custos de armazenamento e reduziria a capacidade de transformar estoques em caixa.
Um acordo de navegação confiável poderia liberar cargas acumuladas, melhorar o abastecimento das fábricas turcas e aliviar parte da pressão sobre os preços. Sem um acordo, comerciantes e processadores continuam dependentes de um corredor cujo início, regras operacionais e garantias de segurança permanecem indefinidos.