Cervejeiros poloneses estimam em 700 milhões de zlotys por ano o custo da proibição total da publicidade de cerveja
O parlamento polonês analisa dois projetos de lei que proibiriam totalmente a publicidade e a promoção de bebidas alcoólicas, incluindo cerveja, e estenderiam as restrições às versões sem álcool. A associação Browary Polskie estima custos diretos de pelo menos 700 milhões de zlotys por ano para mídia, clubes esportivos e bares e restaurantes. A proposta chega a um mercado que encolhe há oito anos seguidos.
A indústria cervejeira da Polônia estima que a proibição total da publicidade de cerveja em discussão no parlamento geraria pelo menos 700 milhões de zlotys em custos econômicos diretos por ano, atingindo emissoras de televisão, clubes esportivos e restaurantes além das próprias cervejarias, segundo reportagem do dorzeczy.pl.
Dois projetos no Sejm
O Sejm analisa dois projetos de lei apresentados por deputados da Lewica e do Polska 2050 que alteram a lei sobre educação para a sobriedade e combate ao alcoolismo. Ambos preveem a proibição total da publicidade e da promoção de bebidas alcoólicas, incluindo cerveja, e ambos estendem a proibição às bebidas sem álcool, embora divirjam nas soluções detalhadas.
Os autores justificam a medida pela necessidade de limitar a influência da publicidade de álcool, sobretudo sobre os jovens. Na justificativa, afirmam que a exposição ao marketing de álcool pode aumentar o interesse pelo consumo e favorecer a iniciação mais precoce, razão pela qual propõem proibir a publicidade e a promoção tanto de bebidas alcoólicas quanto de produtos sem álcool vendidos sob marcas de álcool.
Mercado em queda e segmento sem álcool em alta
“As maiores consequências para o setor cervejeiro estão ligadas à proibição total da publicidade de cerveja, hoje permitida”, disse à agência Newseria Bartlomiej Morzycki, diretor-geral da Associação de Empregadores da Indústria Cervejeira – Browary Polskie. Ele classificou as propostas como regulação excessiva e desnecessária: o mercado de cerveja está encolhendo e o consumo de álcool cai de modo geral, de forma que não há justificativa para medidas legais tão radicais.
O Centro Nacional de Prevenção de Dependências, citando o instituto de estatística GUS, informa que o consumo de álcool na Polônia foi de 8,3 litros de álcool puro por habitante em 2025, ante 8,8 litros um ano antes, com queda em todas as categorias de bebidas alcoólicas. Dados do GUS citados pela Browary Polskie mostram que a produção vendida de cerveja com álcool caiu 11,9% na comparação anual no primeiro semestre de 2026. O mercado encolhe pelo oitavo ano consecutivo e perdeu mais de 7,5 milhões de hectolitros entre 2018 e 2025.
A cerveja sem álcool segue na direção oposta. Pelos mesmos dados do GUS, sua produção vendida cresceu 16,2% na comparação anual no primeiro semestre de 2026 e 30,1% somente em junho. Pesquisa do CBOS mostra que quase um em cada quatro poloneses se declara abstêmio e que mais da metade dos que consomem álcool também bebem cervejas sem álcool. No Fórum Econômico de Karpacz, Morzycki afirmou que, em pesquisa encomendada pela associação, quase 60% dos entrevistados se opuseram à proibição da publicidade de cerveja 0%, já que os consumidores distinguem com clareza o que é álcool e o que não é.
Mídia, esporte e gastronomia fazem as contas
A associação estima o valor anual conjunto dos efeitos em pelo menos 700 milhões de zlotys. Morzycki detalha o cálculo:
- mais de 200 milhões de zlotys em receitas perdidas por emissoras de TV e outros veículos;
- 100 milhões de zlotys para clubes esportivos, já que o patrocínio esportivo seria proibido junto com a publicidade;
- de 250 a 300 milhões de zlotys para donos de restaurantes e de áreas externas, que teriam de trocar dezenas de milhares de guarda-sóis com marca.
A isso se soma a perda de arrecadação de IVA, pois uma forma de atividade econômica passaria a ser proibida. Segundo Morzycki, toda a presença externa das marcas de cerveja, como o logotipo da cervejaria em um caneco ou em um guarda-sol de área externa, poderia ser considerada publicidade sob as novas regras.
Grzegorz Knap, membro do conselho do Instituto de Direito Esportivo, afirmou que a proibição privaria o esporte polonês de recursos relevantes que hoje chegam a clubes, seleções nacionais e parcerias de eventos, com consequências esportivas, de formação, de desenvolvimento e de infraestrutura. Ele lembrou que na maior parte da Europa Ocidental não existe proibição semelhante, de modo que clubes e seleções estrangeiros continuarão recebendo dinheiro da publicidade de cerveja enquanto os poloneses não, e que não há fila de patrocinadores dispostos a substituir as cervejarias. Segundo o relatório da Sponsoring Insight “Mercado de patrocínio esportivo na Polônia 2025”, o valor dos direitos de patrocínio adquiridos no mercado esportivo polonês chegou a 1,46 bilhão de zlotys em 2024, 7,9% mais que um ano antes; empresas de bens de consumo, grupo que inclui as cervejarias, responderam por 7,6% desse valor.
Lúpulo, empregos e cadeia de suprimentos
Bartlomiej Pejo, deputado da Konfederacja, apontou as consequências para os produtores de lúpulo e demais negócios ligados ao setor: segundo ele, a Polônia é o terceiro maior produtor de lúpulo da Europa e o quinto do mundo. Ele sustentou que as mudanças atingiriam toda a cadeia de suprimentos e produção, incluindo logística, transporte, comércio e gastronomia, além de limitar eventos esportivos e possibilidades de patrocínio, e defendeu que adultos decidam quais produtos consomem, enquanto a venda a menores deve ser impedida.
Relatório do Centro de Análises Socioeconômicas CASE apontou que a indústria cervejeira gerou mais de 20,5 bilhões de zlotys em valor adicionado em 2024, equivalentes a 0,56% do PIB, e estava ligada a mais de 85 mil empregos em tempo integral. Apenas cerca de 10% deles estavam diretamente nas cervejarias; o restante se distribuía entre agricultura, comércio, gastronomia, transporte e armazenagem.
Análise completa do mercado