Japão inicia auditoria no Brasil e pode abrir mercado para carne bovina em novembro
O Japão começou nesta terça-feira, dia 10, uma auditoria de quatro dias ao sistema sanitário animal do Brasil, etapa do processo que pode abrir o mercado japonês à carne bovina brasileira. A expectativa é que o anúncio ocorra em novembro, durante a COP-30 em Belém.
Inspetores japoneses percorrem o sistema sanitário do Brasil
O Ministério da Agricultura, Florestas e Pesca do Japão (MAFF) iniciou nesta terça-feira, dia 10, uma auditoria de quatro dias ao sistema sanitário animal brasileiro, etapa da avaliação de Tóquio sobre a abertura de seu mercado à carne bovina do Brasil, segundo o Terra/Estadão. Luis Rua, secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, afirmou que a missão segue até sexta-feira, dia 13, e integra o processo do governo japonês de avaliação da abertura de mercado.
A delegação japonesa iniciou a visita na segunda-feira, com reunião inicial na sede do Ministério da Agricultura em Brasília. A auditoria na prática começou na terça-feira em Santa Catarina, com passagens pela Superintendência Federal da Agricultura do Estado e pela Cidasc, a companhia integrada de desenvolvimento agropecuário estadual. Na quarta-feira, dia 11, os inspetores visitaram a unidade veterinária local e a unidade regional de São Miguel do Oeste. Em seguida, a equipe seguiu para o posto de fiscalização da BR-163, na divisa entre Paraná e Santa Catarina, o posto do Vigiagro em Dionísio Cerqueira e a unidade veterinária de Cascavel (PR). No último dia, sexta-feira, a comitiva deve visitar a Adapar e a Superintendência Federal de Agricultura do Paraná, em Curitiba.
Santa Catarina e Paraná foram os primeiros Estados brasileiros a obter o reconhecimento de área livre de febre aftosa sem vacinação, status que o Brasil estendeu a todo o território na semana passada.
Etapa seis de um processo de doze passos
As vistorias fazem parte de um processo de 12 etapas conduzido pela Autoridade Sanitária Animal (ASA) do Japão, vinculada ao MAFF, para a abertura do mercado à carne bovina brasileira. Segundo o cronograma do governo japonês, as vistorias atuais correspondem ao passo seis. Não há previsão de visitas a frigoríficos nesta fase, já que a auditoria trata do sistema sanitário como um todo.
Concluídas as vistorias, a ASA elabora relatórios de análise de risco e consulta o comitê de análise de risco animal. O comitê relata os resultados à ASA, que notifica o Brasil e estabelece os requisitos de saúde animal para o certificado sanitário internacional (CSI) a ser acordado entre os dois países. Na sequência, a autoridade sanitária japonesa notifica o Brasil e inicia o processo de habilitação dos frigoríficos brasileiros para exportação.
Status livre de aftosa remove obstáculo central
O reconhecimento do Brasil como livre de febre aftosa sem vacinação pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) — exigência do Japão — é visto como a superação de um dos principais entraves às negociações. Roberto Perosa, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), disse na cerimônia de reconhecimento em Paris: "Temos agora todas as garantias solicitadas. As questões técnicas estão avançando rapidamente. O certificado da OMSA vai nos permitir avançar ainda mais."
Perosa defende que as autoridades japonesas considerem que todo o território brasileiro obteve o reconhecimento, ante o pedido anterior que cobria apenas cinco Estados com selo de livre de aftosa sem vacinação: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Acre e Rondônia. "Esperamos que o Japão considere o novo status sanitário brasileiro. É um novo momento. A expectativa é que a abertura seja finalizada ainda neste ano", afirmou.
Abertura esperada em torno da COP-30
Pessoas que acompanham as tratativas esperam que o Japão anuncie a abertura do mercado à carne bovina brasileira em novembro, durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30), em Belém, no Pará. "A decisão política para a abertura já está tomada, restando apenas os procedimentos técnicos a serem cumpridos", avaliou uma pessoa a par do assunto.
O governo japonês prometeu a auditoria ao Brasil em março, durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Japão. O acesso ao mercado japonês — reconhecido pela alta exigência de qualidade, pelo consumo de cortes de maior valor agregado e por preços remuneradores — é uma ambição da indústria há mais de 20 anos. O processo foi acelerado no ano passado, quando parlamentares e técnicos do governo japonês visitaram o Brasil duas vezes para avaliar frigoríficos, a mais recente em outubro, com a presença do ministro da Agricultura do Japão.
A indústria brasileira de suínos também busca ampliar o acesso ao Japão, hoje autorizado apenas para carne proveniente do Paraná. Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), descreveu o Japão como "um mercado que não é especulativo, que valoriza a qualidade e o fornecimento contínuo — um mercado que costuma pagar prêmios sobre as exportações."