Índia se firma como mercado de rápido crescimento para o agro brasileiro
As exportações agropecuárias do Brasil para a Índia somaram US$ 2,8 bilhões em 2025 e podem chegar a US$ 9 bilhões até 2030, segundo o Valor citando o Mapa. Algodão, etanol, óleo de soja e genética bovina impulsionam a expansão.
Os exportadores do agronegócio brasileiro, por muito tempo voltados a Estados Unidos, Europa e China, olham cada vez mais para a Índia. As exportações agropecuárias e de alimentos ao país somaram US$ 2,8 bilhões em 2025 e cresceram 47% no primeiro trimestre, segundo o Valor. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) estima que o valor pode chegar a US$ 9 bilhões em 2030, puxado por algodão, etanol, óleo de soja e genética bovina.
Etanol e açúcar
A cadeia sucroalcooleira mostra a rapidez da virada. Em 2014, produtores brasileiros ainda reclamavam dos subsídios indianos ao setor. Eduardo Leão, diretor de estratégia e novos mercados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), afirmou que a experiência brasileira ajudou a Índia a expandir seu programa de etanol, elevando a mistura na gasolina de cerca de 2% para aproximadamente 20% em menos de dez anos. Martinho Ono, CEO da corretora de etanol SCA Brasil, disse que direcionar parte da cana indiana ao etanol reduz os excedentes de açúcar do país, diminui a pressão sobre a oferta global e favorece os produtores brasileiros.
A rápida escalada do algodão
O algodão é o que mais avança. O Brasil, maior exportador global do produto, deve enviar 300 mil toneladas à Índia na safra 2025/2026, ante apenas 8 mil toneladas em 2023. Gustavo Piccoli, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), descreveu a Índia como o segundo maior mercado consumidor do mundo e um elo importante da cadeia têxtil global, atribuindo os avanços ao trabalho de longo prazo das associações setoriais e do governo, com assistência técnica à indústria indiana. O crescimento pode se intensificar com as mudanças climáticas e a fronteira agrícola limitada da Índia.
Óleos vegetais e genética bovina
Os óleos vegetais são outro pilar. O Brasil já é o segundo maior fornecedor de óleo de soja à Índia, com 39,5% do mercado, atrás apenas da Argentina. A demanda indiana por óleos comestíveis gira em torno de 15 milhões a 16 milhões de toneladas ao ano, das quais cerca de 4 milhões de toneladas são de soja. A genética pecuária é uma frente mais nova: a Alta Genetics do Brasil concretizou seu primeiro embarque à Índia no início de 2024, com o envio de 40 mil doses de sêmen da raça Gir Leiteiro para Mumbai, a maior exportação brasileira de sêmen bovino ao país, após quatro anos de tratativas técnicas, comerciais e sanitárias. O diretor comercial Tiago Carrara disse que há negociações para novos projetos envolvendo embriões e programas de melhoramento mais avançados, já que a Índia é o maior produtor e consumidor mundial de leite.
Marco comercial atrasado
Ruy Toledo, sócio da área agro do escritório FAS Advogados, avaliou que a aproximação com a Índia — país de 1,4 bilhão de habitantes e classe média urbana de 350 milhões — pode ser a transformação mais relevante para o agro brasileiro desde que a China se tornou o principal destino das exportações, com 20%. Ele acrescentou que a demanda tende a crescer por proteínas, alimentos processados, cafés especiais, frutas e produtos de maior valor agregado. As barreiras, no entanto, permanecem. Renato Cunha, presidente da Associação dos Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (NovaBio), lembrou que o acordo preferencial entre a Índia e o Mercosul é de 2009 e abrange apenas 450 linhas tarifárias.