Super El Niño ameaça a área recorde de cevada do Brasil e a demanda de cerveja no calor
Órgãos federais calculam mais de 90% de chance de o El Niño chegar à categoria "muito forte" até novembro, com chuva acima da média prevista no Sul justamente no pico da colheita de cevada. O Paraná plantou 130 mil hectares, área recorde, mas a fatia de lavouras em boas condições caiu de 86% para 80% em uma semana. Em 2024 o país produziu 955 mil toneladas de malte, metade das 1,93 milhão de toneladas de que precisaria.
O Brasil entrou na primavera na terça-feira com os órgãos federais calculando mais de 90% de chance de o El Niño chegar à categoria "muito forte" até novembro — a configuração conhecida como Super El Niño. Segundo o terceiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, do governo federal, que reúne cálculos da agência meteorológica norte-americana NOAA, há 69% de probabilidade de o fenômeno ser o mais intenso desde 1950. A publicação setorial Guia da Cerveja apurou que a previsão coloca em revisão tanto a safra de cevada quanto a demanda de cerveja na estação quente.
O painel, divulgado em agosto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em parceria com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e outros órgãos, projeta de três a cinco ondas de calor no trimestre, contra duas a três nos anos sem o fenômeno. A previsão é de mais chuva no Sul e menos no Norte, no Nordeste e em parte do Centro-Oeste e do Sudeste, com temperaturas acima do normal em quase todo o país. O próprio painel ressalva que mais intensidade não garante mais estragos, mas aumenta a chance de eles ocorrerem.
Área recorde diante do excesso de chuva
O Paraná responde por 84% da área brasileira de cevada e deve entregar 88,1% da safra nacional, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O estado plantou 130 mil hectares, área recorde e 23% maior que a do ano passado, animado pela demanda de novas maltarias.
O Boletim Conjuntural do Departamento de Economia Rural (Deral), do governo paranaense, divulgado na quinta-feira, mostra que o clima já deixa marcas. A colheita começou em agosto e chegou a 4% da área total, ritmo parecido com o do ano passado (6%), sem atraso relevante. Mas, em uma semana, a fatia de lavouras em boas condições caiu de 86% para 80%. Um ano antes, eram 90%.
"O principal fator de incerteza recai sobre os efeitos do El Niño", escreve o engenheiro agrônomo Carlos Hugo Godinho, autor da análise de cevada do boletim. Segundo ele, a chuva já se destacou durante o inverno, período historicamente mais seco no estado, e deixa "pouca margem para expectativas favoráveis na primavera".
O pico da colheita cai em outubro e novembro, exatamente quando se prevê chuva acima da média no Sul. O Painel El Niño alerta que o excesso de umidade pode comprometer a qualidade dos grãos. Repetir o rendimento de 4.736 quilos por hectare da safra passada é improvável, avalia Godinho, embora a área maior ainda possa garantir volume superior às 500 mil toneladas do ciclo anterior, desde que o clima dê trégua. O boletim não estima perdas e, com a colheita no início, ainda é cedo para medi-las.
Um déficit de malte que amplia o risco
A qualidade pesa tanto quanto o volume porque o Brasil é estruturalmente deficitário em malte. Em 2024 o país produziu 955 mil toneladas, ante as 1,93 milhão de toneladas de que precisaria, segundo dados apresentados por Jeferson Caus, da Cooperativa Agrária, no congresso Do Grão ao Gole. Uma safra ruim tende a aprofundar essa dependência das compras externas.
O calor puxa a demanda, mas até um limite
A Scanntech, que cruzou vendas do varejo com dados de cerca de 600 estações do INMET entre 2022 e 2026, mostra que cada grau a mais eleva em 4,1% o volume de bebidas sensíveis ao clima. Na cerveja, o ganho é de 5,0% por grau, o terceiro maior, atrás da água (5,7%) e dos isotônicos (5,4%).
A relação não é linear. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, da ETH Zurich e da Universidade Estadual da Carolina do Norte analisaram vendas no varejo dos Estados Unidos entre 2006 e 2023 e viram o consumo de bebidas alcoólicas subir com o calor até cerca de 32 °C, com o efeito positivo diminuindo acima disso, segundo a Reuters. Em junho, Paris chegou a proibir o consumo de álcool na rua e a venda de bebidas durante uma onda de calor pelo risco de desidratação.
Na teleconferência do balanço do segundo trimestre, em 30 de julho, o CEO da Ambev, Carlos Lisboa, disse a analistas que "o ano de 2024 ilustrou que temperaturas mais altas podem, sim, influenciar a demanda", mas que "esses efeitos são imprevisíveis". E completou: "O que podemos fazer é nos prepararmos para enfrentarmos diferentes cenários climáticos".
Pressão de custos em toda a cadeia
Lisboa lembrou que eventos climáticos extremos podem afetar agricultura, commodities, preços de logística e custos de insumos. A energia é um dos pontos de atenção: a Aneel manteve a bandeira amarela em setembro, com adicional de R$ 1,885 a cada 100 kWh, por causa da estiagem típica da época e do maior uso de termelétricas. Esse custo chega a uma cadeia que depende de frio, da fábrica ao balcão do bar. E, se safras ruins encarecerem os alimentos, o orçamento doméstico se aperta e a cerveja sai do gasto discricionário.
Felipe Passarelli, diretor de inteligência de mercado da Scanntech, disse ao Valor Econômico que antecipar oscilações virou a principal ferramenta do mercado. "Com um El Niño de intensidade elevada previsto para os próximos meses, o clima deixa de ser um imprevisto operacional e passa a ser uma premissa de planejamento", afirmou. "A diferença entre reagir e antecipar está em tratar a temperatura como dado, e não como sorte".