Excesso de uvas e stocks de vinho no Douro pressiona margem dos viticultores
O Douro produz mais uvas do que os mercados de vinho do Porto e DOC Douro conseguem absorver, deixando os viticultores com menos compradores e stocks crescentes. As vendas de Porto estão 34% abaixo do nível de 2000, enquanto a vindima atual poderá produzir cerca de 240 mil pipas para uma necessidade de 180 mil a 190 mil.
Oferta cresce mais depressa do que as vendas
A região vitivinícola do Douro enfrenta um desequilíbrio crescente entre a produção de uvas e as vendas de vinho. Os viticultores não conseguem escoar parte da colheita, enquanto os comerciantes acumulam stocks que o mercado não absorve. O ECO/Local Online relata que a crise se formou ao longo de décadas: as vendas de vinho do Porto recuam há 26 anos, ao mesmo tempo que a área de vinha aumentou para reforçar os vinhos tranquilos com denominação DOC Douro.
Adrian Bridge, presidente executivo da Fladgate Partnership, estima que a área de vinha do Douro cresceu cerca de 25% desde 2000. Os vinhos tranquilos começaram por absorver parte das uvas e compensar a quebra da procura de Porto, mas esse segmento também perdeu força. António Filipe, presidente da Associação das Empresas de Vinho do Porto, disse ao ECO/Local Online que as vendas de DOC Douro registavam quebras superiores a 10% no final de junho.
As vendas de vinho do Porto estão hoje cerca de 34% abaixo do nível de 2000, segundo Bridge, que cita números do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto. Filipe estima que as vendas do vinho fortificado tenham recuado, em média, mais de 100 milhões de euros por ano durante a última década. Os operadores desenvolveram categorias de Porto com indicação de idade de 10, 20, 30 e 40 anos e armazenaram a produção não vendida, mas essas medidas não eliminaram o excedente.
Vindima atual poderá superar necessidades em 20%
A campanha atual começou 15 dias mais cedo do que o habitual e poderá produzir cerca de 240 mil pipas de uvas para DOC Douro e vinho do Porto, segundo Filipe. As vendas exigem apenas 180 mil a 190 mil pipas, colocando o excedente estimado em cerca de 20%. Algumas grandes empresas exportadoras informaram os viticultores de que não comprarão uvas além das quantidades contratualizadas através do sistema regional do benefício.
O benefício determina quanto mosto generoso cada produtor do Douro pode destinar à produção de vinho do Porto. O volume autorizado caiu de 104 mil pipas em 2023 para 90 mil em 2024 e 75 mil em 2025, uma redução acumulada de 29 mil pipas. Na campanha atual, o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto autorizou 76 mil pipas de Porto, equivalentes a 57 milhões de quilogramas de uvas. Os comerciantes argumentam que a limitação das compras abrange empresas grandes, médias e pequenas, bem como cooperativas, porque não podem financiar uvas para as quais não têm vendas.
Preços estagnados agravam pressão
A situação económica das explorações deteriorou-se porque os custos de produção aumentaram e os preços das uvas permaneceram baixos. Manuel Cordeiro, presidente da Câmara Municipal de São João da Pesqueira, afirmou que as uvas destinadas a vinho do Porto são pagas há cerca de duas décadas a aproximadamente 1.000 euros por pipa de 750 quilogramas, equivalente a 550 litros. As uvas para DOC Douro podem valer 150, 200 ou, no máximo, 400 euros por pipa.
O Ministério da Agricultura e do Mar reconheceu o desequilíbrio entre oferta e procura, o aumento dos stocks, a pressão sobre o preço das uvas e a fragmentação da estrutura produtiva. O problema vai além das explorações individuais: grande parte dos 18 mil viticultores da região depende da vinha, e o Douro representa cerca de 44% do valor das exportações portuguesas de vinho. Em 2025, a região gerou aproximadamente 365 milhões de euros em vendas de vinho do Porto e 235 milhões de euros em DOC Douro, menos 0,2% e 1,5% em termos homólogos, respetivamente, segundo dados do instituto divulgados em maio.