Excedente de vinho em Portugal aumenta pressão sobre viticultores do Douro
O setor vitivinícola português entra noutra vindima com existências superiores à procura e dificuldades no escoamento das uvas. No Douro, produtores manifestaram-se no Peso da Régua por compras garantidas, preços justos e medidas de destilação.
Vindima começa sob o peso das existências
O setor vitivinícola português volta a enfrentar um desequilíbrio persistente entre produção e procura no arranque de uma nova vindima. O Instituto da Vinha e do Vinho, IVV, estimou inicialmente uma produção nacional de 6,2 milhões de hectolitros na campanha 2025/2026, menos 11% do que na época anterior. A redução, porém, não elimina a pressão das existências já acumuladas na cadeia de abastecimento nem a menor capacidade de absorção do mercado.
As declarações finais do IVV colocaram a produção em 5,9 milhões de hectolitros, uma descida de 14% face a 2024/2025 e de 16% perante a média das cinco campanhas anteriores. Os vinhos com Denominação de Origem Protegida ou Indicação Geográfica Protegida representaram 91% da produção nacional. Os tintos corresponderam a 53,9%, os brancos a 39,4% e os rosados a 6,7%. Apesar da colheita menor, o problema comercial continua a ser a quantidade de vinho disponível em relação ao volume que os compradores aceitam adquirir.
Viticultores do Douro exigem escoamento garantido
O desequilíbrio tornou-se especialmente visível no Douro. Os viticultores que se manifestaram no Peso da Régua exigiram medidas imediatas para garantir a venda das uvas e preços à produção que remunerem o seu trabalho. Entre as propostas está a afetação de uvas a vinho destinado à destilação. A medida retiraria parte do excedente do mercado de bebidas e criaria um destino para fruta que, de outra forma, poderia ficar por vender.
Entre 400 e 500 produtores participaram numa manifestação anterior convocada pela Confederação Nacional da Agricultura, segundo o órgão regional VivaDouro. Os viticultores receavam uma terceira vindima consecutiva com dificuldades de escoamento ou preços baixos. Alguns já tinham recebido comunicações a cancelar encomendas de uvas. Os manifestantes também pediram mais fiscalização dos mostos e vinhos provenientes de fora da região e defenderam que os vinhos comercializados como Douro sejam produzidos com uvas do Douro.
Menor produção não garante preços mais altos
Os números mostram por que razão uma colheita menor não basta para devolver poder negocial aos viticultores. O vinho pode ser armazenado, pelo que as existências de campanhas anteriores continuam a competir com a nova produção. Se adegas e comerciantes já tiverem inventário suficiente, a quebra da produção nacional não gera automaticamente mais procura por uvas acabadas de colher. Os pequenos e médios produtores ficam particularmente expostos porque precisam de comprador durante uma janela curta e têm capacidade limitada para armazenar ou transformar as próprias uvas.
A destilação pode aliviar o mercado no curto prazo ao converter vinho excedentário em álcool para outras utilizações, mas não ajusta por si só a produção futura das vinhas à procura comercial. A compra garantida protegeria os produtores durante a vindima atual, enquanto um controlo de origem mais apertado responderia às preocupações com vinhos e mostos de outras zonas. A longo prazo, o setor português terá de reduzir existências sem empurrar os preços das uvas para níveis insustentáveis. Para os viticultores do Douro, a prioridade imediata é encontrar comprador antes do fim da vindima.