El Nino ameaça a safra de cana-de-açúcar da Índia que começa em outubro
A safra de cana-de-açúcar da Índia deve começar em outubro sob a ameaça do El Nino. Um relatório da Bloomberg alerta para uma possível queda na produção de açúcar na próxima temporada. Os efeitos vão além da Índia e atingem importadores, refinarias e o mercado de fretes.
A safra de cana-de-açúcar da Índia está prevista para começar em outubro, e as previsões apontam o El Nino como o principal risco para o volume de açúcar que as usinas conseguirão produzir. Um relatório da Bloomberg alerta que a produção pode cair na próxima temporada em razão do efeito do El Nino sobre a lavoura, uma perspectiva que extrapola o país, dado o peso indiano na oferta mundial de açúcar.
El Nino e o ciclo da cana
O El Nino é um aquecimento periódico das águas superficiais do Pacífico equatorial. Na Índia, está historicamente associado a uma monção do sudoeste mais fraca e irregular, e são justamente essas chuvas que determinam a umidade do solo ao longo de todo o ciclo de crescimento da cana.
A cana-de-açúcar é uma cultura de ciclo longo e alta exigência hídrica. O estresse por falta de umidade nas fases de perfilhamento e de crescimento intenso reduz a produtividade por hectare e também derruba o teor de sacarose. A usina perde duas vezes: mói menos cana e extrai menos açúcar de cada tonelada processada. Como o dano se forma meses antes do início da moagem, ele só aparece nos dados das usinas depois que a safra começa.
Por que o início em outubro importa
A safra costuma abrir em outubro e se estende até os meses de primavera. As primeiras semanas dão o tom de toda a campanha, porque trazem as primeiras leituras confiáveis sobre disponibilidade de cana e sobre o rendimento em açúcar por tonelada.
As usinas precisam fechar contratos de compra de cana, capital de giro e logística antes de conhecer o tamanho real da safra. Um sinal de monção fraca aumenta a probabilidade de rendimento decepcionante no início da moagem, o que afeta diretamente o caixa, o cronograma de pagamento aos fornecedores de cana e a própria duração da safra.
Etanol e política de exportação em um ano apertado
A Índia direciona parte do caldo de cana e do melaço para etanol combustível dentro de seu programa de mistura, de modo que o balanço açucareiro do país já não depende apenas da colheita. Quando a cana é escassa, a divisão entre açúcar para o mercado interno, matéria-prima para as destilarias de etanol e volumes disponíveis para exportação passa a ser uma decisão de política, e não puramente comercial. As exportações indianas são administradas, o que permite ajustar os fluxos comerciais com rapidez assim que o quadro da safra ficar mais claro, e importadores da Ásia, do Oriente Médio e da África Oriental planejam sua cobertura com base nisso.
O que o mercado acompanha
- As chuvas de monção e sua distribuição nas principais regiões canavieiras até o fim do ciclo vegetativo.
- Os rendimentos de sacarose divulgados nas primeiras semanas de moagem, o indicador confiável mais precoce da qualidade da safra.
- A divisão da cana entre produção de açúcar e destilarias de etanol.
- Qualquer mudança na política de exportação da Índia, que se transmitiria diretamente aos preços internacionais e à demanda por frete.
A avaliação da Bloomberg trata da direção da produção, e não da dimensão final de um eventual déficit; não haverá números definitivos enquanto as usinas não começarem a reportar moagem e rendimento. Para tradings, refinarias e importadores, a questão prática nos últimos meses do ano é quanto da necessidade já está coberto antes de se conhecer o tamanho da safra, e com que velocidade é possível contratar origens alternativas caso a disponibilidade indiana aperte.
Análise completa do mercado