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Cultivo de cacau no Brasil avança para novos Estados com preços altos

Preços internacionais elevados e um déficit de produção interna levam o cultivo de cacau aos 26 Estados brasileiros, incluindo Paraná e Santa Catarina. A produção nessas novas áreas cresceu 1.358% em 2025, para 175 toneladas, mas o país importou 42,1 mil toneladas de amêndoas.

Cultivo de cacau no Brasil avança para novos Estados com preços altos

O cultivo de cacau avança para além do cinturão tradicional do Brasil

Os preços internacionais elevados e uma produção interna que não acompanha a demanda estão levando o cultivo de cacau a regiões brasileiras onde, até pouco tempo atrás, a cultura tropical era improvável, segundo o Valor. A Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), órgão ligado ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), já registra cacaueiros nos 26 Estados brasileiros, incluindo Paraná e Santa Catarina, no Sul.

A participação deles na produção nacional ainda é inexpressiva, mas, de acordo com a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), a produção nessas novas áreas cresceu 1.358% em 2025, para 175 toneladas de amêndoas, na comparação com o ano anterior. No Estado de São Paulo, o produtor Marcelo Grumiero espera sua primeira colheita no ano que vem do cacau que plantou em sistema de agrofloresta no município de Valentim Gentil, próximo a Votuporanga. Ele recuperou um pasto degradado comprado em leilão e hoje cultiva cacau ao lado de banana e açaí em 16 hectares com irrigação por gotejo integral, mirando um nicho de maior rentabilidade sob a marca Gumkee, e não o mercado da commodity.

Grumiero é um dos cerca de 120 produtores em 65 municípios apoiados pelo programa Cacau SP, da Cati, órgão de assistência técnica da Secretaria de Agricultura de São Paulo, segundo Fernando Miqueletti, diretor da unidade da Cati em São José do Rio Preto.

Preços e um déficit estrutural atraem os produtores

O principal atrativo são os preços. Depois de atingir o recorde de US$ 12 mil a tonelada na Intercontinental Exchange de Nova York em 2024, o cacau parece se acomodar agora na faixa de US$ 4 mil, bem acima da média de US$ 2,5 mil a US$ 3 mil dos últimos 30 anos. O Valor atribui a disparada de 2024 a uma crise climática que prejudicou as safras dos maiores produtores — Gana, Costa do Marfim, Indonésia e Equador — e derrubou os estoques globais.

Essa alta reduziu o consumo mundial de derivados de cacau e, por consequência, a moagem brasileira. A AIPC estima que o choque diminuiu a moagem em cerca de 14,6% entre 2024 e 2025 e reduziu a utilização da capacidade instalada para 71% em 2025, 12 pontos percentuais abaixo de 2024.

No cenário global, o Brasil segue como ator secundário. A Ceplac coloca a produção mundial em 4,8 milhões de toneladas, 65% delas de países africanos. O Brasil ocupa a sexta posição, com menos de 250 mil toneladas anuais, e o 45º lugar entre os exportadores; Bahia e Pará concentram mais de 95% do total. Desde que a vassoura-de-bruxa atingiu as lavouras baianas nos anos 1990, a oferta doméstica não dá conta da demanda industrial: um relatório encomendado pela AIPC apontou que o consumo brasileiro superou, em média, em 16% a produção na última década. As importações de amêndoas chegaram a 42,1 mil toneladas em 2025, 65,2% a mais que em 2024.

A legislação agita a indústria moageira

O governo atuou em várias frentes. A Medida Provisória 1.341/2026, publicada em 12 de março, reduziu o prazo do regime de drawback para importar amêndoas de cacau de dois anos para seis meses. Segundo a AIPC, cerca de 18% das amêndoas processadas no Brasil são importadas, e 99,2% desse volume entrou sob o regime de drawback entre agosto de 2024 e agosto de 2025. Anna Paula Losi, presidente da AIPC, alertou que a medida gera insegurança jurídica e freia investimentos em um país ainda deficitário em cacau. Já Orlantildes Santos Pereira, presidente da cooperativa Coopercabruca — 79 cooperados que produzem cerca de 500 toneladas por ano na região de Itabuna (BA), 70% para exportação —, defendeu-a como forma de impedir que as indústrias formem estoques para pressionar os preços ao produtor para baixo.

Em 2025, as exportações de cacau bruto somaram US$ 4,2 milhões, ante US$ 598 milhões em derivados (amêndoas, manteiga, pasta e pó) vendidos ao exterior. Outras duas medidas — a Lei nº 15.404/26, sobre percentual mínimo de cacau e rotulagem dos chocolates, e uma portaria de maio que criou o Plano Inova Cacau 2030 — buscam elevar a produtividade, que, segundo o diretor da Ceplac, Thiago Guedes Viana, é metade da dos produtores africanos e equatorianos. Losi ponderou que o Inova Cacau não tem recursos próprios.

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