Zâmbia leva o contrato queniano de 540 mil toneladas de milho e o excedente sul-africano segue bloqueado
A Food Reserve Agency da Zâmbia assinou em 10 de setembro de 2026 um acordo para enviar 540 mil toneladas de milho branco ao Quênia, cuja safra deve cair 40% neste ano. A África do Sul poderia exportar mais de 3 milhões de toneladas até abril de 2027, mas a suspensão judicial queniana das importações transgênicas e uma tarifa de 50% a mantêm praticamente fora do mercado.
A África do Sul vai encerrar a atual safra comercial de milho com mais grão do que consegue colocar no mercado interno, enquanto o Quênia, um dos maiores compradores de milho da África, caminha para um déficit severo. Oferta e demanda, porém, não se encontram. Segundo a Ecofin Agency, as regras quenianas sobre grãos geneticamente modificados e uma tarifa de importação de 50% mantêm o milho sul-africano em grande parte fora do mercado queniano, e os negócios ficam com fornecedores regionais.
O sinal mais claro veio em setembro. Em 10 de setembro de 2026, a Food Reserve Agency (FRA) da Zâmbia assinou em Lusaka um acordo para enviar 540 mil toneladas de milho branco ao Quênia. O volume será entregue em seis lotes: os cinco primeiros de 100 mil toneladas cada e o último de 40 mil toneladas. As partes não divulgaram o valor do contrato.
O excedente zambiano encontra comprador
A Zâmbia espera que sua safra de milho chegue perto de 5 milhões de toneladas neste ano, após condições climáticas favoráveis. Segundo maior produtor de milho da África, o país tem excedentes exportáveis expressivos e se tornou uma das principais fontes de milho branco da região.
O contrato queniano dá a esse excedente um destino firme e em grande escala. A participação da Zâmbia no Mercado Comum da África Oriental e Austral (COMESA) permite a entrada do milho no Quênia sem imposto, e trata-se de milho branco não transgênico — exatamente o tipo que os moageiros quenianos processam para consumo humano.
O déficit do Quênia e o pedido de importação sem imposto
O Quênia prevê queda de 40% na safra de milho neste ano. Seca, chuvas insuficientes e precipitação irregular pressionaram a produtividade. As importações adicionais devem aliviar a pressão de curto prazo sobre oferta e preços, mas permanece uma lacuna significativa de abastecimento.
A Cereal Millers Association (CMA) pediu ao governo autorização para importar sem imposto quase 3 milhões de toneladas de milho branco. O secretário de gabinete de Agricultura e Desenvolvimento Pecuário ainda não decidiu sobre o pedido. O quadro estrutural por trás disso:
- A demanda anual de milho no Quênia supera 4,5 milhões de toneladas, enquanto a produção interna oscila com o clima e fica persistentemente abaixo do necessário.
- Entre 2021 e 2025, o Quênia importou em média 500 mil toneladas de milho por ano, ao custo de 17 bilhões de xelins (US$ 130 milhões), segundo dados oficiais.
- Isso faz do Quênia o quarto maior importador de milho da África, atrás de Egito, Argélia e Marrocos.
Decisão sobre transgênicos e tarifa de 50%
A África do Sul tem volume para cobrir boa parte dessa lacuna. O economista agrícola Wandile Sihlobo estima que o país possa exportar mais de 3 milhões de toneladas de milho na safra comercial que termina em abril de 2027, além de quase 1,1 milhão de toneladas já embarcadas entre o início de maio e o início de setembro de 2026.
Há duas barreiras. Uma decisão do Tribunal de Apelação do Quênia, de março de 2025, suspendeu a importação e a comercialização de produtos geneticamente modificados até a análise de um recurso, e cerca de 85% do milho sul-africano é transgênico. Os fornecedores ainda podem embarcar milho não transgênico para o Quênia, mas precisam comprovar a origem em cada etapa da cadeia de suprimentos e atender às exigências quenianas de importação. Em paralelo, o Quênia aplica tarifa de 50% ao milho sul-africano, porque a África do Sul não integra nem a Comunidade da África Oriental (EAC) nem o COMESA.
Vantagem para os fornecedores regionais
Essas condições favorecem os fornecedores tradicionais do Quênia. A Tanzânia é membro da EAC e a Zâmbia do COMESA, o que garante acesso sem imposto às duas, e ambas produzem milho branco sem variedades geneticamente modificadas. Até o Quênia mudar seu marco legal, informa a Ecofin Agency, os exportadores sul-africanos devem continuar priorizando mercados regionais como Zimbábue, Botsuana, Namíbia e Moçambique.