Varejistas britânicos vendem carvão vegetal paraguaio ligado ao desmatamento no Chaco
Investigação da Global Witness rastreia o carvão vegetal vendido por B&Q e Waitrose até a fornecedora paraguaia Taruma, cuja madeira vem de estabelecimentos que derrubaram mais de 28.000 hectares de floresta do Chaco desde 2012. A lei britânica não abrange produtos de carvão vegetal, enquanto as regras mais rígidas da UE entram em vigor em 30 de dezembro.
Grandes redes varejistas britânicas, entre elas B&Q e Waitrose, vendem carvão vegetal para churrasco feito de árvores derrubadas para abrir áreas agrícolas no Chaco paraguaio, segundo investigação publicada na quinta-feira pela organização Global Witness.
O relatório rastreia o carvão vegetal vendido em supermercados e lojas de materiais de construção do Reino Unido até a Taruma, empresa florestal paraguaia que a Global Witness aponta como a maior fornecedora internacional da marca britânica de churrasqueiras Big K, cujos produtos são comercializados em todo o país. Waitrose e B&Q não responderam aos pedidos de comentário.
O Chaco sul-americano, também chamado de Gran Chaco, é a segunda maior floresta do continente depois da Amazônia e se estende por Paraguai, Argentina, Brasil e Bolívia. Pesquisadores, entre eles cientistas da NASA, apontam que o Paraguai tem uma das maiores taxas de desmatamento do mundo em relação à sua área florestal, impulsionada sobretudo pela agricultura e pela pecuária.
O que mostra a análise de satélite
Uma análise de satélite citada no relatório mostrou que a Taruma compra madeira de estabelecimentos que derrubaram mais de 28.000 hectares de floresta desde 2012. Um segundo fornecedor, a Paben SA, que trabalhou com a Big K até 2023, derrubou cerca de 2.700 hectares de floresta no Chaco paraguaio desde 2021, segundo o relatório.
- Mais de 28.000 hectares derrubados desde 2012 em estabelecimentos que abastecem a Taruma, conforme a análise de satélite citada pela Global Witness.
- Cerca de 2.700 hectares derrubados desde 2021 pela Paben SA, fornecedora da Big K até 2023.
- As regras da UE para produtos de qualquer terra desmatada, legal ou não, entram em vigor em 30 de dezembro.
A Paben SA não respondeu aos pedidos de comentário. Em resposta por escrito à Reuters, a Taruma negou qualquer irregularidade. “A Taruma não derruba florestas nem possui licenças de corte, portanto nossas operações não contribuem para o desmatamento nem para seus efeitos sobre o clima regional. Nossa equipe de sustentabilidade acompanha de perto as pesquisas sobre mudança de uso do solo no Chaco”, disse o diretor-geral da empresa, Rahmeen Farudi.
O Instituto Florestal Nacional do Paraguai, Infona, não respondeu aos pedidos de comentário.
Uma lacuna nas regras de importação do Reino Unido
A Global Witness afirmou que tanto as leis ambientais permissivas do Paraguai quanto a legislação ambiental britânica permitem que o carvão vegetal ligado ao desmatamento chegue ao mercado do Reino Unido. A Lei do Meio Ambiente britânica de 2021 proíbe importações vinculadas ao desmatamento ilegal, mas se aplica apenas a produtos de terras desmatadas ilegalmente e não abrange produtos de carvão vegetal, o que significa que o material paraguaio produzido em áreas desmatadas legalmente ainda pode entrar no país.
Isso contrasta com as regras mais rígidas da UE, que proibirão todos os produtos ligados a terras desmatadas, independentemente de o corte ter sido legal, quando entrarem em vigor em 30 de dezembro. O Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais do Reino Unido, o Defra, não respondeu de imediato a um pedido de comentário.
O que está em jogo no acordo com o Mercosul
O Paraguai busca estreitar os laços comerciais com a Europa por meio do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, em meio ao escrutínio crescente sobre o impacto ambiental das importações do bloco sul-americano, que inclui também Argentina, Brasil e Uruguai. O país, exportador relevante de soja e carne bovina, apresentou em julho sua primeira política florestal nacional, comprometendo-se a avançar para uma fiscalização ambiental mais rígida a fim de cumprir os padrões comerciais da UE.
Embora o Reino Unido não faça mais parte da UE, a venda ali de produtos questionáveis do ponto de vista ambiental pode prejudicar as ambições do Paraguai de colocar outros produtos no mercado europeu sob o acordo com o Mercosul.
Grupos ambientalistas e vários governos da UE, entre eles França, Áustria e Polônia, alertaram que a ampliação das exportações agrícolas do Mercosul para a Europa pode acelerar o desmatamento em ecossistemas como o Gran Chaco.