Produtores venezuelanos pedem bloqueio ao açúcar brasileiro antes da safra
Produtores venezuelanos de cana pedem a suspensão das importações de açúcar refinado sem tarifa após a chegada de 32.000 toneladas do Brasil. O setor teme queda dos preços e dificuldades para vender a produção da próxima safra.
Carga brasileira preocupa o setor antes da safra
Produtores venezuelanos de cana-de-açúcar pediram ao governo nacional que suspenda as importações de açúcar refinado depois que um navio com 32.000 toneladas de açúcar branco brasileiro ensacado chegou a Puerto Cabello em 28 de julho, segundo o El Carabobeño. O setor afirma que a carga sem tarifa entrou em um momento sensível do ciclo produtivo, pouco antes de usinas e fazendas começarem a comercializar o açúcar da próxima colheita.
As fontes apresentam calendários diferentes para a safra. A Costa del Sol FM informou que produtores do estado de Portuguesa esperam iniciar a colheita em novembro, enquanto o Correo del Caroní apontou uma temporada de dezembro a abril. Nos dois cenários, o setor teme que o açúcar importado continue ocupando prateleiras e estoques comerciais quando a produção venezuelana chegar ao mercado.
Estoques internos cobrem cerca de dois meses
As estimativas de estoque também divergem. Produtores citados pela Costa del Sol FM relataram mais de 88.000 toneladas armazenadas no circuito Guanare-Papelón. Eugenio Rodríguez, diretor da associação Socaragua e tesoureiro da federação nacional Fesoca, disse ao Correo del Caroní que a Venezuela tinha 100.000 toneladas guardadas, suficientes para dois meses de consumo. Os dois números sustentam o argumento de que outra carga de açúcar refinado não é necessária agora.
Os produtores diferenciam o açúcar refinado pronto, que pode seguir diretamente para a distribuição, do açúcar bruto importado para processamento nas usinas venezuelanas. Luis Pérez, presidente da Socaragua, afirmou que o produto brasileiro entrou sem tarifas ou impostos e já estava embalado para venda. O setor defende que qualquer déficit seja coberto com açúcar bruto, preservando o refino e os empregos dentro do país.
Produtores alertam para pressão sobre preços e usinas
As usinas venezuelanas abastecem 60% do mercado nacional com açúcar produzido a partir de cana local, segundo o Correo del Caroní. Os 40% restantes são cobertos por matéria-prima importada e refinada no país. Os agricultores temem que substituir parte desse fluxo por açúcar acabado reduza a demanda por cana e a utilização da capacidade industrial. Emilio Vargas, vice-presidente da Fesoca, alertou que o produto importado poderá ser vendido por menos de 1 dólar.
A Socaragua reúne produtores de Aragua, Carabobo, Cojedes, Guárico e Yaracuy, estados responsáveis por 16% da produção nacional. A safra 2025-2026 nessas áreas já ultrapassou 440.000 toneladas de cana e 35.000 toneladas de açúcar. Pérez estimou que a produção de 32.000 toneladas de açúcar sustenta cerca de 1.000 famílias, ou aproximadamente 4.000 pessoas quando seus integrantes são incluídos.
Setor cobra intervenção do governo
Os produtores pediram ao Ministério da Agricultura e Terras que limite novas entradas de açúcar refinado e proteja o investimento que impulsionou o crescimento recente da produção. Eles afirmam que comerciantes poderão rejeitar o açúcar venezuelano caso ainda disponham de produto importado mais barato quando as vendas da nova safra começarem. O impacto atingiria os preços no campo, as compras de cana, a operação das usinas e os empregos nos estados produtores.
A Venezuela ainda tem quatro usinas privadas em atividade, responsáveis por mais de 80% da produção nacional, enquanto quatro unidades públicas fornecem o restante, informou o Correo del Caroní. Para os agricultores, a questão não envolve apenas o volume importado, mas também o tipo de produto e o momento da entrada. O açúcar bruto mantém o refino local, enquanto o produto acabado sem tarifa concorre imediatamente com os estoques e a safra que se aproxima.
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