Petróleo barato complica a estratégia indiana de etanol de milho: misturar custa mais que a gasolina
A Índia compra etanol de milho a um preço fixo de 71,86 rupias por litro, enquanto um litro de petróleo lhe custa cerca de 55 rupias, e o Ministério do Petróleo admite que, com o barril a 70 dólares, misturar sai mais caro do que produzir gasolina pura. O milho já responde por quase metade do etanol indiano e tornou o país importador líquido em 2024. As usinas de açúcar enfrentam preços congelados e as destilarias operam com cerca de metade da capacidade.
A política indiana de reduzir a conta do petróleo importado criou uma nova dependência de importações — a de milho —, enquanto o etanol misturado à gasolina custa mais do que o combustível que substitui, informa o The Hindu.
O etanol custa mais que o petróleo que substitui
O governo compra etanol de milho a um preço fixo de 71,86 rupias por litro, a maior taxa que paga por qualquer matéria-prima, segundo dados apresentados à Lok Sabha. Um litro de petróleo custa ao país cerca de 55 rupias, mesmo com o impacto da crise na Ásia Ocidental, e menos de 45 rupias em mercados mais calmos. O Ministério do Petróleo e Gás Natural admitiu que, com o petróleo perto de 70 dólares o barril, misturar etanol à gasolina custa mais do que produzir gasolina sem ele. O E20 — 80% de gasolina e 20% de etanol — segue caro apesar da queda das cotações do petróleo, o que o The Hindu atribui à baixa produtividade do milho indiano, à falta de capacidade para absorver a demanda de etanol e à necessidade de equilibrar o consumo interno de açúcar com as exportações.
De exportador de milho a importador líquido
O milho fornece hoje quase metade de todo o etanol misturado à gasolina indiana, ante uma participação praticamente nula há três anos, mostram dados do governo, o que o torna a maior matéria-prima isolada para etanol. Somando o arroz excedente da Food Corporation of India e os grãos danificados, os cereais respondem por quase 70% do etanol produzido no país. A mudança foi deliberada: o relatório de junho de 2021 “Roadmap for Ethanol Blending in India 2020-25”, elaborado pelo NITI Aayog com o Ministério do Petróleo, concluiu que a cana-de-açúcar sozinha não sustentaria a meta de 20% de mistura e recomendou culturas menos exigentes em água, como o milho. A Índia atingiu essa meta, batizada de E20, em 2025 — cinco anos antes do previsto.
A agronomia é menos favorável do que o plano sugeria. O milho é uma cultura de kharif, predominantemente de sequeiro e de ciclo mais curto que a cana, e consome menos água subterrânea, mas rende cerca de 3,5 toneladas por hectare, contra 80 da cana-de-açúcar.
- As exportações de milho caíram de cerca de US$ 764 milhões em 2022/23 para aproximadamente US$ 201 milhões em 2024/25 — cerca de 550 mil toneladas, algo como um quarto do valor anterior —, segundo dados comerciais dos ministérios da Agricultura e do Comércio.
- A Índia tornou-se importadora líquida de milho em 2024, pela primeira vez em décadas, comprando cerca de 0,9 milhão de toneladas no valor aproximado de US$ 220 milhões, boa parte de Mianmar e da Ucrânia.
- Os preços internos do milho subiram de cerca de 15.000 para 25.000 rupias por tonelada em quatro anos.
- Cerca de 12,7 milhões de toneladas de milho — perto de um terço da produção nacional — já estão contratadas para etanol.
Quem importa são os produtores de aves e de rações, que disputam o mesmo grão com as destilarias e para os quais a alimentação animal representa de 60% a 70% dos custos de produção.
Usinas pressionadas e metade da capacidade parada
As usinas que lucraram com as políticas E5 e E10 veem os retornos encolherem. Os preços das rotas de etanol de cana estão congelados desde 2022, ao passo que o preço garantido que as usinas devem pagar aos fornecedores de cana subiu 16,5%. A Indian Sugar and Bio-Energy Manufacturers Association (ISMA) afirma que o etanol de melaço B-heavy custa hoje cerca de 66 rupias por litro para produzir, mas é vendido a um preço fixo de 60,73 rupias. A Balrampur Chini Mills, uma das principais produtoras, relatou queda do lucro do negócio de etanol de cerca de 3,26 bilhões de rupias em 2023/24 para 1,92 bilhão no ano seguinte.
A capacidade avançou muito além da demanda. A ISMA estima a capacidade instalada em quase 20 bilhões de litros por ano, contra uma demanda anual de cerca de 11 a 12 bilhões de litros, o que deixa as destilarias operando em torno de metade da utilização e cerca de 4,5 bilhões de litros ociosos. Com a ausência quase total de veículos flex na frota indiana, produzir mais etanol torna-se contraproducente.
Química e a comparação com o Brasil
O etanol queima de forma mais limpa que a gasolina: sua molécula tem dois átomos de carbono, contra sete ou oito, em média, dos hidrocarbonetos mais pesados da gasolina, e por isso emite menos dióxido de carbono por litro. O The Hindu relata que essa mesma química deixa o etanol com apenas um terço da energia por litro porque, como explicam o Departamento de Energia dos Estados Unidos e o Argonne National Laboratory, a molécula já contém um átomo de oxigênio e está parcialmente oxidada.
O Brasil, modelo citado pela Índia, conduz a política de outra forma. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos afirma que os preços do etanol brasileiro são definidos pelo mercado, e não pelo Estado, e os veículos do país rodam com misturas de 85% de etanol e até etanol puro, de modo que o motorista só compra quando o preço compensa o consumo maior. Nos postos indianos, o E20 é vendido pelo mesmo preço da gasolina comum, cuja metade, aproximadamente, é imposto. O governo afirma que a mistura já poupou bem mais de 1 trilhão de rupias em divisas e elevou a renda agrícola — ganhos que vão para o Tesouro e para os produtores rurais, não para o motorista.