Nepal entra na disputa sul-asiática pelos direitos geográficos do arroz basmati
O Nepal contesta a tentativa da Índia de obter proteção geográfica exclusiva para o arroz basmati na Europa. Sua participação amplia uma disputa antes dominada por Índia e Paquistão e levanta a possibilidade de uma proteção transfronteiriça.
Nepal torna-se o terceiro reivindicante do nome basmati
O Nepal entrou na longa disputa sobre quem pode comercializar arroz com o nome basmati ao contestar a tentativa da Índia de obter proteção exclusiva para a denominação na União Europeia. A iniciativa amplia um conflito antes protagonizado principalmente por Índia e Paquistão e incorpora outra parte da região Indo-Gangética ao debate sobre origem geográfica, tradições produtivas e direitos de marca.
O basmati tem prestígio especial no Sul da Ásia. No Nepal, é servido em casamentos, cerimônias religiosas e durante o festival Dashain. O país defende que sua história de produção e sua ligação cultural com o grão sejam consideradas na definição dos direitos geográficos. Um estudo publicado na International Review of Intellectual Property and Competition Law afirmou que o Nepal precisará de uma especificação consistente de indicação geográfica caso seu governo pretenda promover o basmati nepalês sob proteção.
Pedido indiano enfrenta oposição regional
A Índia apresentou em 2018 um pedido de indicação geográfica protegida na União Europeia para o basmati cultivado em determinadas regiões indianas. O Paquistão contestou formalmente a solicitação em 2021. O Nepal também manifestou discordância, embora o Le Monde tenha informado que Katmandu não apresentou na ocasião uma oposição formal pelo procedimento europeu.
Os interesses comerciais são consideráveis. Segundo a The Week, a Índia respondia por 65% do comércio internacional de basmati, enquanto o Paquistão detinha os 35% restantes. O Le Monde informou que a Índia exportou mais de 4,5 milhões de toneladas, avaliadas em €4,3 bilhões, em 2022-2023. O Paquistão, porém, tinha posição mais forte na Europa: mais de 200 mil toneladas de basmati paquistanês entraram no mercado europeu em 2022, ante aproximadamente 100 mil toneladas da Índia.
Esses fluxos explicam por que o controle do nome é relevante para processadores e exportadores. Uma indicação protegida pode limitar quais produtores têm autorização para vender mercadorias sob uma denominação geográfica reconhecida. Ela protege a autenticidade e pode sustentar o posicionamento premium. O reconhecimento exclusivo da Índia na UE poderia, portanto, afetar fornecedores paquistaneses e produtores nepaleses interessados em usar o nome basmati naquele mercado.
Denominação compartilhada continua difícil
A disputa reflete a geografia da produção. O Le Monde descreveu o basmati como um cultivo praticado há séculos na planície Indo-Gangética, hoje dividida principalmente entre Índia e Paquistão. A União Europeia havia incentivado os dois países a apresentar um pedido conjunto, e já existem indicações geográficas transfronteiriças para outros produtos. As tensões políticas impediram um acordo, enquanto o Paquistão protocolou um pedido europeu separado em 2023.
A participação do Nepal complica qualquer definição baseada em um único país. Katmandu precisa comprovar a ligação entre as qualidades ou a reputação do produto e o território nepalês, enquanto Índia e Paquistão possuem setores exportadores consolidados e muito maiores. Para agricultores, beneficiadores e comerciantes, a decisão determinará mais do que reconhecimento cultural: afetará direitos de rotulagem, proteção de marca e acesso ao prêmio associado ao nome basmati. Uma solução transfronteiriça poderia preservar a denominação para produtores qualificados nas áreas tradicionais. As reivindicações nacionais separadas, porém, deixam o mercado europeu diante de um prolongado conflito jurídico e comercial.