Mercado Livre entra no mercado de remédios com receita e entrega em uma hora
O Mercado Livre começou a vender medicamentos com prescrição em São Paulo, com entrega em até 60 minutos pelo novo serviço Envios Agora. A plataforma já negociou contratos com três farmácias e pretende chegar a 20 acordos neste ano, acirrando a concorrência com as principais redes do país.
Venda de medicamentos com receita começa em São Paulo
O Mercado Livre entrou no mercado brasileiro de medicamentos com prescrição e ampliou sua oferta de saúde, antes concentrada em itens sem retenção de receita, como analgésicos e vitaminas. As vendas começaram em São Paulo em 25 de setembro e incluem medicamentos à base de GLP-1, além de categorias como antibióticos e produtos controlados.
O serviço faz parte do Envios Agora, novo programa lançado em 24 de setembro para entregar mercadorias de qualquer categoria com peso de até 15 quilos. Os pedidos de farmácia cobertos pela iniciativa podem chegar ao consumidor em até 60 minutos. O Mercado Livre pretende firmar acordos com 20 drogarias na cidade de São Paulo ainda neste ano. Três contratos já foram negociados, mas a companhia não revelou os nomes dos operadores.
Antes da expansão, a oferta de produtos sem prescrição estava limitada ao estoque operado a partir de uma farmácia na zona sul de São Paulo. O novo modelo dá ao marketplace acesso a produtos regulados e de compra frequente, enquanto as farmácias parceiras fornecem os medicamentos elegíveis.
Custo da entrega vira instrumento de competição
O Mercado Livre ainda avalia como o frete grátis será aplicado ao novo serviço. Por enquanto, permanecem as condições atuais: usuários do Meli+ têm entrega sem custo em itens elegíveis para pedidos acima de R$ 19. A política pode se tornar uma diferença relevante em um mercado no qual redes estabelecidas cobram por parte das entregas expressas.
Segundo simulações realizadas pelo Valor, a RD Saúde cobrava R$ 7,99 nas compras abaixo de R$ 200, enquanto a Drogaria São Paulo aplicava uma taxa de R$ 7,99 na capital independentemente do valor da cesta. A entrada do Mercado Livre aumenta, portanto, a pressão não apenas sobre os preços dos medicamentos, mas também sobre tarifas, velocidade e benefícios dos programas de assinatura.
Fernando Yunes, vice-presidente executivo do Mercado Livre para a América Latina, disse ao Valor que a plataforma identificou uma procura elevada por medicamentos e que a conversão de visitas em vendas na categoria era muito maior do que em outros produtos. Os medicamentos também apresentam uma das maiores frequências de compra do varejo, oferecendo à empresa a possibilidade de ampliar a recorrência dos clientes.
O marketplace, porém, entra no segmento sem as bases de dados de consumidores acumuladas pelas maiores redes e sem sua capilaridade de lojas físicas. Esses pontos oferecem atendimento de balcão e estoque local, vantagens relevantes para produtos regulados e compras urgentes.
Ações de redes de farmácias caem após anúncio
Os investidores reagiram rapidamente ao lançamento. Na B3, as ações da RD Saúde fecharam em queda de 5,38%, a Panvel recuou 4,90% e a Pague Menos registrou a maior baixa, de 8%, segundo o Valor. O Mercado Livre passa a concorrer diretamente com essas empresas e com a Drogaria São Paulo, entre os operadores tradicionais do país.
A expansão é sustentada por um desenvolvimento logístico mais amplo. O Mercado Livre espera encerrar o ano com 30 centros de distribuição tradicionais no modelo fulfillment, ante 21 no ano anterior. Ao incluir estruturas de cross-docking e centros de recebimento e triagem, a rede deve alcançar 72 instalações até o fim de 2026, alta de 39% sobre o ano anterior.
Essa infraestrutura dá à empresa experiência em entregas rápidas, mas medicamentos com receita acrescentam exigências regulatórias, de estoque e de atendimento diferentes das mercadorias comuns de um marketplace. A primeira etapa em São Paulo testará se o alcance logístico, as farmácias parceiras e os benefícios do Meli+ conseguem compensar a cobertura de lojas e o conhecimento dos clientes pelas redes tradicionais. Varejistas farmacêuticos, empresas de saúde digital e investidores acompanharão o resultado para avaliar a velocidade com que a concorrência das plataformas pode avançar no mercado regulado de medicamentos do Brasil.