Líbano avalia importar GNL pela Jordânia, mas custos e financiamento ameaçam plano elétrico
O Líbano estuda receber GNL no terminal jordaniano de Aqaba e transportar o gás regaseificado pelo Gasoduto Árabe até suas usinas. Especialistas ouvidos pelo Al Taqa afirmam que o combustível reduziria o uso de óleo combustível, mas frete, regaseificação, trânsito e financiamento podem comprometer a viabilidade econômica.
Rota por Aqaba mira Deir Ammar
O Líbano estuda importar gás natural liquefeito pela Jordânia para acrescentar combustível a um sistema elétrico afetado há anos por problemas financeiros e operacionais. Pela rota proposta, o GNL chegaria ao porto de Aqaba, seria regaseificado e seguiria pelo Gasoduto Árabe, atravessando Jordânia e Síria antes de entrar em território libanês.
O ministro da Energia do Líbano afirmou que o gás abasteceria as usinas elétricas, começando por Deir Ammar, no norte do país. A instalação foi projetada para operar com gás natural, mas atualmente queima óleo combustível. A usina de Zahrani também poderia usar gás posteriormente, segundo especialistas entrevistados pela publicação especializada Al Taqa.
O gás oferece vantagens técnicas e ambientais sobre o óleo combustível, mas a cadeia proposta acumula vários custos. Os compradores teriam de pagar pelo GNL, pelo transporte marítimo até Aqaba, pela regaseificação na Jordânia, pelo transporte dutoviário e pelas tarifas de trânsito na Jordânia e na Síria. Financiamento, manutenção, perdas no gasoduto e o gás consumido pelas estações de compressão acrescentariam outras despesas.
Custo entregue definirá a viabilidade
Yasser Hilal, diretor do Sharq Energy Center for Studies and Consulting, citou estimativas do Banco Mundial que colocam liquefação, transporte e regaseificação em cerca de 5 dólares por milhão de unidades térmicas britânicas. O valor não inclui transporte por gasoduto nem tarifas de trânsito. O gás ainda teria de percorrer cerca de 840 quilômetros, com estações de compressão ao longo do trajeto.
Naji Abi Aad, especialista em economia de energia e presidente-executivo da Petrolab em Beirute, disse ao Al Taqa que o GNL já é caro antes da regaseificação e do trânsito. Segundo ele, o óleo combustível pode custar menos que o gás entregue por esse mecanismo, embora o gás seja ambientalmente superior. A questão central é quem absorverá a diferença entre o custo da geração e as tarifas limitadas cobradas no Líbano. O ônus pode recair sobre a Electricité du Liban ou o Estado.
Jessica Obeid, assessora de políticas públicas para eletricidade e engenheira de energia, afirmou que a comparação deve considerar o preço do gás na chegada a Deir Ammar, e não apenas a cotação do GNL. Ela também alertou para a volatilidade do mercado global. Cerca de 20% do comércio mundial de GNL passa pelo Estreito de Ormuz, elevando a exposição a tensões geopolíticas e interrupções marítimas.
Financiamento e infraestrutura continuam pendentes
A rota aumentaria a dependência libanesa de infraestrutura e contrapartes na Jordânia e na Síria. Por isso, pode funcionar melhor como abastecimento emergencial do que como fonte permanente de combustível acessível. Hilal citou o uso recente de Aqaba para regaseificar cargas de GNL redirecionadas em benefício do Egito e inserir o gás na rede durante as pressões de abastecimento do verão.
Outra alternativa seria o Líbano alugar uma unidade flutuante de regaseificação. Hilal disse que sua capacidade deveria atender a todas as usinas compatíveis, e não apenas Deir Ammar, para dividir os custos e melhorar a utilização. O país também poderia avaliar com a Síria o aluguel conjunto de uma unidade maior, seguindo modelos de cooperação adotados por Egito e Jordânia.
Os planos anteriores se concentravam no gás egípcio transportado pelo Gasoduto Árabe. Laurie Haytayan, diretora para Oriente Médio e Norte da África do Natural Resource Governance Institute, afirmou que a proposta voltou à pauta em 2022, após o acordo de fronteira marítima entre Líbano e Israel. Desde então, o aumento da demanda doméstica reduziu a capacidade egípcia de abastecer o Líbano: o Egito importa gás de Israel e compra GNL de vários países, incluindo os Estados Unidos.
A disponibilidade de combustível, sozinha, não resolverá a fragilidade financeira do setor elétrico libanês. Obeid afirmou que a Electricité du Liban precisa de caixa suficiente para pagar pelo combustível e manter as operações. Ela defendeu a redução das perdas, a melhora na cobrança das contas e o reparo da rede. Sem essas medidas, o gás importado pode elevar os custos para o Estado e os consumidores sem produzir uma melhora sustentável no fornecimento elétrico.