Espanha enfrenta desde março falta de terapias hormonais para a menopausa, com laboratórios a recusar o financiamento público
A agência espanhola do medicamento (Aemps) regista desde março problemas de fornecimento em terapias hormonais de substituição usadas por cerca de 400.000 mulheres. Uma falha no difusor do spray de estradiol Lenzetto desencadeou uma reação em cadeia que atingiu os adesivos Evopad e Estradot, enquanto o Bijuva falta até 30 de novembro e o Climodien foi retirado do mercado mundial. Segundo o El País, várias empresas recusaram incluir os seus tratamentos no financiamento público.
A Espanha enfrenta desde março falhas de fornecimento de terapias hormonais de substituição (THS): a falta de seis medicamentos obriga as doentes a percorrer farmácias à procura do tratamento habitual, noticiaram o El País e o Diario de Sevilla. A Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos Sanitários (Aemps) tem registados problemas de abastecimento que afetam fármacos de THS usados em casos de menopausa, falência ovárica precoce, remoção ou disfunção dos ovários, bem como por mulheres trans. Cerca de 400.000 mulheres em Espanha usam atualmente estas terapias, segundo a ginecologista da Gine4 Mercedes Herrero.
Uma falha no spray que se estendeu aos adesivos
Tudo começou com o Lenzetto, um spray de estradiol que passou a escassear em março devido a um problema com o difusor. A Aemps conta que o fornecimento normalize durante novembro. Enquanto a agência trabalha para aumentar as unidades disponíveis, as utilizadoras podem recorrer ao gel Oestraclin ou a vários adesivos, indica o Diario de Sevilla.
A substituição gerou uma reação em cadeia. O aumento da procura provocado pela escassez de Lenzetto acabou por afetar a disponibilidade de algumas apresentações dos adesivos Evopad — os únicos financiados pelo sistema público de saúde — e do Estradot, acrescentando tensão a um mercado já comprometido.
Paragem de produção e retirada mundial
O Bijuva, combinação de 17β-estradiol e progesterona, falta desde julho e deverá manter-se indisponível até 30 de novembro, após a suspensão de todas as atividades de fabrico, embalagem e comercialização. A produção já estabilizou, mas a acumulação de encomendas provoca restrições em todos os mercados. O medicamento pode ser substituído por diferentes combinações das suas substâncias ativas.
O Climodien é um caso distinto: deixou de ser vendido a nível mundial a pedido do laboratório fabricante. Não se prevê um impacto relevante, uma vez que existem comprimidos alternativos de estrogénios e progestagénios. A sua quota de mercado é de apenas 14%, inferior à de três dos substitutos disponíveis.
A comparticipação no centro do conflito
Segundo o El País, a agência do medicamento afirma que várias empresas recusaram incluir os seus tratamentos no financiamento público. Isso deixa os adesivos Evopad como a única opção financiada entre os produtos afetados e concentra a procura num único medicamento comparticipado sempre que falham as restantes apresentações. As sociedades científicas deveriam reunir-se na sexta-feira com o regulador para discutir a situação, noticiou o El País.
Fontes da Aemps atribuem os problemas atuais a uma combinação de fatores. Herrero aponta para a procura em subida constante: estes tratamentos libertaram-se do tabu criado por um estudo antigo que os associava erradamente a um maior risco de cancro, conclusão já desmentida por investigações posteriores.
Tratamentos interrompidos e pressão das doentes
Herrero sublinha que existem alternativas clínicas: «O spray transdérmico pode ser substituído pelo adesivo ou pelo creme, também administrados através da pele. Temos até comprimidos de estradiol natural que podem servir à mulher, a menos que não possa usar tratamento oral.» Ressalva, porém, que «haver opções não quer dizer que não estejamos perante um problema» e avisa que «a adesão terapêutica é fundamental para que um tratamento seja eficaz. Quando falta um fármaco, é muito frequente que os tratamentos sejam interrompidos.» As falhas repetidas podem ainda gerar desconfiança em doentes e profissionais de saúde, tornando alguns clínicos mais reticentes na prescrição.
A pressão das doentes está a aumentar. Rebeca Martín, uma mulher de 49 anos em tratamento com THS, lançou uma campanha no change.org que já reuniu mais de 20.000 assinaturas, exigindo ação preventiva perante possíveis problemas de abastecimento e alternativas acessíveis quando falta um medicamento. O Diario de Sevilla descreve casos concretos: uma doente preferiu adiar para novembro o início do tratamento com Lenzetto depois de não encontrar difusor em várias farmácias, enquanto outra, de 44 anos, optou por uma terapia que a convencia menos em vez de repetir a busca todos os meses. As farmácias recorrem ao Farmahelp, uma plataforma que ajuda a localizar medicamentos com problemas de fornecimento.
Análise completa do mercado