El Nino ameaça lavouras da África do Sul após safra recorde de milho
A safra recorde de milho e a recuperação das reservas hídricas reduziram na África do Sul o risco imediato de desabastecimento alimentar. Um novo ciclo de El Nino, porém, ameaça a produção agrícola e pode pressionar os preços dos alimentos. O colchão é real, mas vale para uma única safra.
A África do Sul entra no próximo ciclo climático com um colchão pouco usual. A safra recorde de milho e a recuperação das reservas hídricas reduziram o risco imediato de desabastecimento alimentar. A ameaça de um novo El Nino, no entanto, mantém sob pressão as perspectivas de produção agrícola e de preços dos alimentos.
A safra recorde de milho define o ponto de partida
O milho é o eixo da agricultura sul-africana. É o cereal básico do país, a matéria-prima da farinha de milho no consumo das famílias e o principal insumo das rações de aves, suínos e gado leiteiro. Uma safra recorde não cobre apenas o consumo do ciclo: eleva os estoques de passagem para o ano seguinte, e é o nível de estoques que determina qual quebra de produção o mercado consegue absorver antes de os preços reagirem.
O mecanismo de preços é direto. O milho sul-africano costuma operar dentro de uma faixa delimitada pela paridade de exportação embaixo e pela paridade de importação em cima. Um excedente empurra o preço para o piso da paridade de exportação, porque a tonelada marginal precisa sair do país. Um déficit o leva à paridade de importação, em que a tonelada marginal tem de ser embarcada de fora, com frete e câmbio somados. A distância entre esses dois níveis é a faixa pela qual a seca se converte em inflação de alimentos.
As reservas hídricas como segundo amortecedor
A recuperação das reservas hídricas é a outra razão para o risco imediato de abastecimento ser limitado. Reservatórios mais cheios sustentam a produção irrigada, garantem as alocações municipais e industriais e reduzem a probabilidade de restrições no início da safra.
A proteção, porém, é desigual. A água armazenada cobre a horticultura irrigada, a cana-de-açúcar e uma parcela limitada das lavouras de sequeiro. O cinturão de grãos de verão, que responde pela maior parte do milho, depende quase inteiramente da chuva. Nenhum nível de reservatório substitui a precipitação na janela de dezembro a fevereiro, a da polinização e do enchimento de grãos, quando a safra de milho é feita ou perdida.
Onde entra o risco do El Nino
O El Nino está associado a chuvas abaixo da média e temperaturas mais altas na África Austral durante o ciclo de crescimento de verão. Para o complexo agrícola, a transmissão ocorre por vários canais ao mesmo tempo:
- área plantada, se a seca no início da janela atrasar ou inibir o plantio;
- produtividade, se o estresse térmico e hídrico coincidir com a floração e o enchimento de grãos;
- custo da ração, que se transfere em poucos meses para aves, suínos e leite;
- oferta regional, já que os mercados vizinhos da África Austral se apoiam no milho sul-africano.
O dano não é linear. Um déficit moderado de chuvas com os silos cheios é um episódio de preços de alcance limitado. Um déficit severo com os estoques já consumidos transforma o excedente interno em necessidade de importação, e a troca da paridade de exportação pela de importação acontece rápido assim que o balanço vira.
O que o mercado vai acompanhar
A sequência da próxima safra é clara: as chuvas durante a janela de plantio, depois as intenções e os dados de área plantada, em seguida as sucessivas estimativas de colheita. Cada etapa estreita o leque de cenários, e o preço do milho vai reagir a elas muito mais do que à atual safra recorde, já incorporada ao balanço.
O ponto central é que o colchão funciona uma única vez. Os estoques acumulados em um ano bom são consumidos no ano ruim seguinte e não são repostos por ele. Uma temporada de El Nino sobre uma safra recorde é administrável. Um segundo verão fraco consecutivo com estoques esgotados é o cenário que move os preços dos alimentos, encarece a ração e desloca o país de exportador líquido para importador líquido.