Capital espanhol responde por 55,6% da producao de melao no Rio Grande do Norte
Investidores espanhóis respondem por cerca de 55,6% da produção de melão no Rio Grande do Norte, segundo o secretário de Agricultura e Pesca do estado, Guilherme Saldanha. A espanhola Dom Melon iniciou um projeto-piloto de 60 hectares em Mossoró, enquanto a safra 2026/2027 deve movimentar R$ 1,42 bilhão e embarcar cerca de 250 mil toneladas pelo Porto de Natal.
O capital espanhol está por trás de cerca de 55,6% da produção de melão no Rio Grande do Norte, de acordo com o secretário de Agricultura e Pesca do estado, Guilherme Saldanha, em entrevista à Tribuna do Norte. O percentual marca uma virada em um dos principais polos de fruticultura do Brasil, onde o dinheiro estrangeiro financia cada vez mais o plantio, o empacotamento e as operações de exportação.
Agrícola Famosa sustenta a posição espanhola
A maior parte da exposição espanhola passa pela Agrícola Famosa, principal exportadora de frutas do Rio Grande do Norte. "Se nós juntarmos a Agrícola, que tem 50% de capital espanhol, com outras cinco empresas espanholas que atuam fortemente no mercado local, temos algo em torno de 55,6% da produção que contam com investimentos daquele país", afirmou Saldanha.
A Espanha não é a única origem de capital externo na fruticultura do estado. Segundo a Tribuna do Norte, a produção de frutas do Rio Grande do Norte também conta com investimentos de fundos britânicos, americanos, árabes e canadenses.
Dom Melon inicia piloto de 60 hectares em Mossoró
A adição mais recente é a Dom Melon, empresa espanhola que começou a produzir em Mossoró em uma área de 60 hectares, sendo 40 hectares destinados ao melão e 20 hectares à melancia. A primeira colheita é esperada para outubro e deve render 60 contêineres.
Fábio Queiroga, presidente do Comitê Executivo de Fruticultura do RN (Coex) e também consultor técnico da Dom Melon no estado, explicou que a empresa se instalou há poucos meses com um projeto-piloto. "O objetivo, neste momento, é conhecer a produção local", disse. A operação emprega cerca de 60 trabalhadores no Rio Grande do Norte, e a companhia já cultiva área equivalente de 60 hectares no vizinho estado de Pernambuco.
Queiroga destacou que a entrada não exigiu aporte elevado. "Não houve novos investimentos expressivos por aqui, uma vez que a empresa absorveu um fundo canadense que já atuava no Brasil. Haverá apenas um pequeno investimento no custeio agrícola", detalhou.
Safra de R$ 1,42 bilhão pelo Porto de Natal
A escala da safra local explica o interesse. A safra do melão potiguar 2026/2027 deve movimentar R$ 1,42 bilhão em volume de negócios, com o embarque de cerca de 250 mil toneladas pelo Porto de Natal para o mercado externo, segundo a Companhia Docas do Rio Grande do Norte.
Saldanha atribui a entrada de recursos estrangeiros à segurança jurídica e à simplificação administrativa. Ele citou um conjunto de processos de desburocratização feitos, nas suas palavras, de forma sustentável e respeitando o meio ambiente, entre eles a outorga das águas, que já pode ser feita pelo computador. O secretário também apontou os diferenciais naturais do estado para a fruticultura: as águas da formação geológica Arenito-Açu e a transposição do São Francisco, que na avaliação dele devem fazer a produção agrícola do RN dobrar nos próximos anos, sem prejuízos ao abastecimento humano. A proximidade das áreas de produção com os portos de Natal, Mucuripe e Pecém é outro fator de atração de investimentos, afirmou.
Custo do dinheiro redesenha a propriedade
Nem todos os agentes locais avaliam a tendência de forma positiva. Queiroga associou o avanço do capital estrangeiro ao que chamou de "política financeira desastrosa" do Brasil. "É uma política que impõe juros altíssimos para as empresas brasileiras, as quais não estão sendo capazes de suportar a carga financeira e não estão conseguindo manter-se dentro das operações. Com isso, algumas empresas nacionais estão sendo absorvidas por empresas internacionais que têm juros racionais dentro de uma economia mais sólida fora do país", avaliou.
Ele descreveu o resultado como "competitividade assimétrica": enquanto o custo de captação de dinheiro no Brasil segue muito alto, o capital que vem de fora a custo mais baixo "torna a vida do produtor nacional ainda mais difícil". O quadro aponta para uma indústria do melão em que áreas de cultivo, empregos e volumes de exportação permanecem no Rio Grande do Norte, mas a maior parte da base produtiva é financiada e cada vez mais controlada de fora do país.