← Voltar às notícias

Brasil encerra 2025/26 com recorde de 3,37 milhões de toneladas de algodão exportadas, alta de 19%

O Brasil embarcou um recorde de 3,37 milhões de toneladas de algodão no ano comercial 2025/26, volume 19% superior ao ciclo anterior e mais que o dobro do registrado quatro anos antes. A China comprou 770,5 mil toneladas e a Índia mais de 350 mil toneladas, enquanto a cadeia discute de onde virá o próximo avanço das exportações.

Brasil encerra 2025/26 com recorde de 3,37 milhões de toneladas de algodão exportadas, alta de 19%

O Brasil encerrou o ano comercial 2025/26 na liderança mundial das exportações de algodão, com um recorde de 3,37 milhões de toneladas embarcadas entre agosto de 2025 e julho de 2026. O volume foi 19% superior ao do ciclo anterior e mais que o dobro das 1,45 milhão de toneladas enviadas quatro anos antes, segundo o Notícias Agrícolas, que acompanhou o debate no Congresso Brasileiro do Algodão, em Belo Horizonte.

O resultado abre uma nova pergunta para a cadeia justamente quando o setor trabalha com a possibilidade de voltar a ampliar a área plantada em 2026/27: depois de ganhar espaço dos concorrentes, de onde virá o próximo crescimento das exportações brasileiras? As respostas discutidas no congresso passam por mais de uma frente — novos mercados, aumento da demanda mundial pela fibra e captura de mais valor por tonelada entregue, via qualidade, rastreabilidade e relacionamento com a indústria.

De fornecedor sazonal a embarques nos doze meses

Para o CEO da Agroconsult, André Pessoa, um dos diferenciais construídos pelo Brasil foi deixar de ser um fornecedor concentrado em determinados períodos e passar a disponibilizar volumes relevantes ao mercado internacional durante praticamente todos os meses do ano. Segundo ele, enquanto Estados Unidos e Austrália ainda apresentam sazonalidade mais marcada em suas exportações, a oferta brasileira ganhou constância à medida que cresceram produção e capacidade logística, permitindo ao país ocupar os principais mercados consumidores.

Para o presidente da SLC Agrícola, Aurélio Pavinato, a mudança já ultrapassou uma condição meramente conjuntural. Ele associa a posição brasileira ao ganho de produtividade, à possibilidade de produzir duas safras no mesmo ano, à eficiência do sistema produtivo e à capacidade de fornecer algodão de forma contínua. “A mudança é estrutural. O Brasil está conquistando o mercado internacional em consequência da nossa alta eficiência produtiva e do nosso sistema de produção. A condição de fazer duas safras e ter alta produtividade é o que garante essa competitividade e a possibilidade de ofertar algodão 12 meses por ano. O cliente quer segurança de suprimento constante”, afirmou Pavinato. Na leitura do executivo, enquanto a produção e o consumo mundiais pouco avançaram em cerca de duas décadas, o Brasil ampliou fortemente sua produção e ocupou participação antes pertencente a outros fornecedores.

China lidera os destinos, Índia se multiplica

A China comprou 770,5 mil toneladas no ano comercial 2025/26, aproximadamente 23% de tudo o que o Brasil exportou no período. Mais do que a concentração em um grande comprador, a estratégia da cadeia vem passando pela diversificação entre diferentes indústrias têxteis da Ásia e de outros mercados. A Índia exemplifica a velocidade com que um destino pode ganhar importância: o país recebeu mais de 350 mil toneladas de algodão brasileiro em 2025/26, volume mais de 40 vezes superior ao registrado dois anos antes. Dados divulgados pela Abrapa indicam que o Brasil passou a responder por cerca de 40% das importações indianas da fibra, mesmo com a Índia figurando entre os maiores produtores mundiais de algodão.

O presidente da Abrapa, Gustavo Piccoli, cita a Índia como demonstração de que ainda há espaço para ampliar a presença brasileira. Para ele, a evolução das exportações e a diversificação dos destinos dão confiança à cadeia para trabalhar com eventual aumento da produção nos próximos ciclos, desde que o país preserve produtividade, custos competitivos e qualidade. A abertura de mercados entra como frente complementar. Durante o congresso, o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, destacou o trabalho governamental para ampliar o acesso de produtos brasileiros e citou o Egito, mercado aberto para a pluma brasileira em 2023; o ministério apontou qualidade e preços competitivos do produto brasileiro e potencial para conquistar participação em um mercado tradicionalmente abastecido por fornecedores como Grécia e Sudão.

Washington defende sua participação

A conquista de novos compradores não ocorre em um ambiente de competição passiva. Pessoa chama atenção para a reação dos Estados Unidos diante da perda de participação no mercado internacional. Segundo o CEO da Agroconsult, a política comercial americana passou a fazer parte dessa disputa, inclusive por meio de negociações de acesso de produtos têxteis ao mercado dos EUA associadas à preferência pela utilização do algodão norte-americano. Na avaliação dele, o Brasil terá de defender sua posição ao mesmo tempo em que tenta ampliá-la.

O esforço ganha importância porque a ampliação da produção brasileira precisa encontrar escoamento principalmente fora do país. Francisco Queiroz, analista do Itaú BBA, destaca que o consumo doméstico não tem avançado no mesmo ritmo da capacidade produtiva e, por isso, as exportações são fundamentais para absorver o excedente. Na leitura do banco, mercados como China, Vietnã, Bangladesh e Índia continuarão tendo papel relevante na diversificação das vendas brasileiras.

A questão do poliéster

Para 2026/27, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projeta alguma recuperação da demanda. O consumo industrial mundial é estimado em 122,9 milhões de fardos, alta de 1,5% sobre o ciclo anterior e maior nível em seis anos, enquanto a produção global é projetada em 117,3 milhões de fardos. A diferença indica um ciclo em que o consumo tende a superar a produção, mas não elimina a discussão estrutural sobre como ampliar de forma mais consistente a utilização do algodão no longo prazo.

É nesse ponto que a concorrência muda de escala. Em vez de enxergar somente Estados Unidos, Austrália ou outros exportadores como adversários comerciais, participantes da mesa-redonda do congresso colocaram as fibras sintéticas, particularmente o poliéster, como uma disputa comum aos produtores de algodão. “O grande recado é que precisamos aumentar o share do algodão em relação ao sintético, não importa a origem”, afirmou o vice-presidente da Abrapa e diretor do CCAB Agro, Alexandre de Marco. Pavinato seguiu na mesma direção ao sustentar que, nessa frente, os países produtores deixam de ser concorrentes entre si e passam a ter no poliéster o principal competidor.

Análise completa do mercado

Utilizamos cookies para melhorar sua experiência de navegação, fornecer conteúdo personalizado e analisar nosso tráfego. Ao clicar em "Aceitar tudo", você consente com o uso de cookies. Você pode gerenciar suas preferências ou saber mais em nossa Política de privacidade.