Brasil avança no mercado egípcio de milho com interrupções no mar Negro
Brasil e Argentina responderam por 88% das importações egípcias de milho até 15 de setembro, enquanto os embarques ucranianos quase desapareceram. Os Estados Unidos podem ganhar espaço, mas preços, fretes e riscos cambiais ainda limitam sua competitividade.
América do Sul ocupa o espaço deixado pela Ucrânia
O Brasil consolida sua posição no mercado egípcio de milho enquanto as interrupções no mar Negro afastam o grão ucraniano de um de seus destinos tradicionais. A Enterprise informou que o Egito não recebeu nenhum carregamento de milho ucraniano desde maio, embora as compras dessa origem normalmente atinjam o pico entre outubro e março. Nenhum importador local comprou milho dos Estados Unidos na primeira metade de setembro. O produto brasileiro representou 100% das cargas recebidas, segundo dados de rastreamento compartilhados com a Enterprise por Hisham Suleiman, diretor-geral da Mediterranean Star Trading.
Brasil e Argentina responderam juntos por 88% das importações egípcias até 15 de setembro, com participações de 60% e 28%, respectivamente. A Ucrânia forneceu 8% e os Estados Unidos, 2%. A chegada de mais 1,3 milhão de toneladas de milho brasileiro era esperada até 15 de outubro. Em meados de maio, a fatia do Brasil já era de 51,4%, ante 17,8% da Argentina e 17,5% da Ucrânia, indicando que a migração para a oferta sul-americana começou antes da última deterioração logística no mar Negro.
Frete e formação de preços limitam os Estados Unidos
A S&P Global Commodities afirmou que o milho americano poderia conquistar uma parcela maior nesta temporada, à medida que compradores egípcios diversificam suas origens além da Ucrânia. Operadores ouvidos pela Enterprise foram mais cautelosos. A Platts avaliou o milho ucraniano para embarque em outubro em cerca de 226 dólares por tonelada FOB, contra 251,28 dólares por tonelada FOB na costa americana do golfo em 16 de setembro. Segundo Suleiman, os exportadores dos Estados Unidos precisariam oferecer preços cerca de 500-600 EGP por tonelada abaixo dos produtos brasileiro e argentino para entrar no mercado.
O tamanho das cargas e a estrutura dos contratos ampliam a desvantagem. Os compradores egípcios costumam importar milho ucraniano em navios com cerca de 30 mil toneladas. Transportar volumes semelhantes dos Estados Unidos elevaria o frete e o custo final. O milho ucraniano normalmente é vendido a preço fixo. O produto americano é cotado com um prêmio sobre os futuros de Chicago, expondo o importador às oscilações tanto do prêmio quanto do mercado futuro.
Atrasos no mar Negro elevam o risco para o setor de rações
Os embarques ucranianos de grãos agora levam mais de um mês para chegar ao destino, ante cerca de 12 dias anteriormente, pois os navios podem esperar semanas para entrar e sair do Danúbio pelo canal de Sulina. A Ucrânia redirecionou suas exportações para o rio depois que ataques russos fecharam seus principais portos no mar Negro. Esses portos movimentavam cerca de 90% das exportações de grãos do país. Ataques posteriores à infraestrutura ribeirinha causaram novas interrupções.
O frete de navios pequenos no mar Negro subiu de 50 para 130 dólares por tonelada em 60 dias após a alta dos preços do petróleo Brent, segundo a Enterprise. O trânsito mais longo também aumenta a exposição dos importadores egípcios ao câmbio no momento da liquidação dos documentos. A volatilidade da libra egípcia, a valorização do dólar e as viagens mais demoradas dificultam as compras mesmo com demanda física firme.
Egito amplia armazenagem e relações com o Brasil
As importações egípcias de milho devem chegar a 10,5 milhões de toneladas no ano fiscal de 2026/27. O milho representa 60-70% das rações produzidas localmente para pecuária, avicultura e aquicultura, enquanto a produção nacional cobre menos de 40% da demanda. As fábricas de ração permanecem, portanto, muito expostas aos preços mundiais dos grãos, aos fretes e ao câmbio. Suleiman afirmou que as unidades estão concentradas nas origens brasileira e argentina, consideradas de melhor qualidade.
O Egito ampliou seu projeto nacional de silos para 81 instalações até 2025, elevando a capacidade de armazenagem de 1,5 milhão para 3,6 milhões de toneladas, com meta de 6 milhões em 2030. Uma delegação da Zona Econômica do Canal de Suez realizou conversas em São Paulo sobre a criação de um centro mundial de grãos e uma plataforma logística de distribuição antes de uma missão comercial brasileira prevista para o início de dezembro. A iniciativa dá continuidade aos estudos iniciados por sete investidores brasileiros em 2024 para uma zona de milho, soja e açúcar voltada à reexportação para mercados árabes e africanos.