Arábica sobe enquanto estoques da ICE se aproximam das mínimas dos anos 1990
Os futuros de arábica avançaram quase 10% em duas sessões, com chuvas atrasando a colheita brasileira e queda dos estoques certificados pela ICE. O USDA ainda prevê mais de 70 milhões de sacas, mas há incerteza sobre disponibilidade imediata e qualidade dos grãos.
Escassez imediata supera perspectiva da safra brasileira
Os futuros do café arábica subiram quase 10% em duas sessões, diante da queda dos estoques em bolsa, dos atrasos na colheita do Brasil e das persistentes interrupções no transporte marítimo. A Economica.net, citando análise da XTB Romania, informou que a demanda ganhou força nos últimos dias e o café registrou suas maiores altas em bastante tempo, embora ainda acumule desvalorização desde o início do ano.
O movimento contrasta com a perspectiva otimista para o Brasil, maior produtor mundial de café. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos mantém previsão de mais de 70 milhões de sacas. Instituições brasileiras, entre elas a agência de safras CONAB, apresentam estimativas mais cautelosas. Para o mercado, a questão imediata não é o potencial de produção no papel, mas a velocidade com que grãos adequados podem ser colhidos, processados e entregues.
Chuvas intensas prejudicam colheita e secagem
Minas Gerais, maior região produtora de arábica do Brasil, recebeu pouco mais de 32 milímetros de chuva em uma semana. Segundo a análise, o volume equivale a 2.700% da média histórica para o período. A precipitação excepcionalmente intensa dificulta a colheita, a secagem e o transporte dos grãos.
Mesmo que o Brasil obtenha uma safra elevada, boa parte desse café ainda não chegou ao mercado. O excesso de umidade também pode comprometer a qualidade. Isso é decisivo para os estoques da ICE, pois o café entregue contra futuros de arábica precisa atender aos requisitos da bolsa. Uma safra recorde, portanto, não repõe automaticamente os armazéns certificados se um volume insuficiente alcançar o padrão exigido.
Estoques da ICE caem abaixo de nível crítico
Os estoques de arábica monitorados pela ICE registraram recentemente queda diária de 5,9%, a maior desde o início de 2025. Ao longo de mais de 25 sessões consecutivas, os inventários recuaram até 26%, segundo a XTB Romania. As séries históricas indicam que as reservas se aproximam de níveis não vistos desde o período entre os anos 1990 e 2000, abaixo de 300.000 sacas.
A redução intensificou o receio de torrefadores e compradores físicos de que falte café para entrega imediata. A diferença entre os futuros de setembro e dezembro aumentou para o recorde de mais de 24 centavos de dólar por libra-peso. Compradores pagam um prêmio significativo pela entrega próxima, enquanto contratos para anos posteriores são consideravelmente mais baratos. Essa estrutura aponta para preocupação com a oferta de curto prazo, não para a expectativa de um déficit mundial duradouro.
Gargalos marítimos prolongam entregas
As tensões no mar Vermelho acrescentam outra restrição. Viagens mais longas, custos maiores de frete e a necessidade de manter estoques de segurança mais elevados atrasam as entregas aos mercados consumidores. O El Niño normalmente provoca excesso de chuva na América do Sul e seca no Sudeste Asiático. No Brasil, isso pode favorecer o desenvolvimento das lavouras, mas também dificultar o trabalho no campo e a logística.
A trajetória dos preços depende agora da velocidade e das condições em que a safra brasileira chegará ao mercado. Radu Puiu, analista da XTB Romania, afirmou que a curva de futuros indica que o mercado não espera um problema prolongado de oferta. Se o aumento da produção permitir a recomposição dos estoques, a chegada do café colhido poderá começar a afetar os preços a partir do outono. Até lá, torrefadores, comerciantes e importadores continuarão expostos a prêmios elevados pelo fornecimento imediato.