Algodão brasileiro lidera exportações mundiais enquanto a demanda interna perde força
O Brasil lidera as exportações mundiais de algodão em pluma enquanto a indústria têxtil e de confecção reduz a produção, informa o Economic News Brasil. A Conab estimou consumo interno de 730 mil toneladas em 2026 diante de exportações projetadas de 3,225 milhões de toneladas, e as importações de vestuário subiram 50,3% entre janeiro e agosto. O Congresso aprovou a MP 1.357/2026, que permite zerar o imposto sobre remessas de até US$ 50.
O Brasil lidera as exportações mundiais de algodão em pluma, mas a cadeia industrial que transforma a fibra em tecidos e roupas dentro do país está encolhendo, informa o Economic News Brasil. As fábricas nacionais reduzem a produção enquanto o vestuário importado avança no mercado interno.
O contraste ganhou peso após a aprovação pelo Congresso da Medida Provisória 1.357/2026, conhecida como “MP das blusinhas”. O texto permite ao Ministério da Fazenda zerar o Imposto de Importação sobre remessas internacionais de até US$ 50 e agora aguarda sanção presidencial. Representantes da cadeia do algodão e da indústria têxtil argumentam que a vantagem tributária dos produtos estrangeiros pode retirar mercado da produção nacional.
Exportação supera em muito a compra das fábricas
Os números da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram a distância entre os dois canais. Em abril, a estatal estimava consumo doméstico de 730 mil toneladas de algodão em pluma em 2026, diante de exportações projetadas de 3,225 milhões de toneladas no mesmo ano.
- Estimativa de consumo interno em 2026: 730 mil toneladas de pluma (Conab, abril)
- Projeção de exportações em 2026: 3,225 milhões de toneladas (Conab, abril)
- Produção da safra 2025/26: 3,97 milhões de toneladas (Banco do Nordeste)
Os embarques também aceleram. O volume exportado cresceu 21,4% entre janeiro e junho, segundo estudo do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (ETENE), do Banco do Nordeste. Como as vendas ao exterior já superam em várias vezes as compras das fábricas, uma redução adicional da demanda interna não interromperia por si só a produção nacional de algodão, mas diminuiria ainda mais o peso do mercado doméstico para os cotonicultores e concentraria a receita no canal exportador.
Confecção cai, importação sobe
Dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), apresentados na discussão da pauta, mostram queda de 6,8% na produção de vestuário de janeiro a julho ante igual período de 2025, enquanto a produção têxtil recuou 3,9%.
As importações de vestuário seguiram no sentido oposto e cresceram 50,3% entre janeiro e agosto. Para a Abit, manter condições tributárias distintas para pequenas encomendas estrangeiras amplia a desvantagem das empresas têxteis brasileiras e, de forma indireta, a da produção nacional de algodão, já que as fábricas são o elo intermediário entre a lavoura e a prateleira.
Fiscalização pesa nos dois sentidos
A Abit também reconhece pontos positivos no texto aprovado, entre eles o reforço da fiscalização e os mecanismos contra subfaturamento, classificação incorreta de produtos e fragmentação artificial das encomendas em remessas menores.
Esses dispositivos importam porque o efeito líquido da medida sobre o volume importado depende de como a isenção e os controles vão interagir na prática, depois que o Ministério da Fazenda decidir se aplica a alíquota zero às remessas abaixo do limite.
Risco para a demanda é indireto e não comprovado
A medida, sozinha, não comprova que haverá queda na demanda pelo algodão brasileiro. A própria Conab projetava em abril ligeiro crescimento do consumo interno em 2026, embora alertasse para riscos ligados à desaceleração econômica e ao cenário internacional.
O risco apontado pela cadeia é de segunda ordem: se a competição com roupas importadas contribuir para reduzir a produção das fábricas nacionais, o algodão perde parte de seu comprador doméstico e fica relativamente mais dependente das exportações. Isso aumenta a importância de fatores que o produtor não controla, como demanda internacional, câmbio, frete e condições comerciais nos principais mercados de destino. O próximo ponto concreto é a sanção presidencial do texto aprovado pelo Congresso, cujo prazo legislativo está em curso.